O dilema da fabricação em Preços de Transferência: diferenças fundamentais entre o acordo de fabricação por encomenda e a fabricação completa

abril 24, 2026

No contexto da globalização das cadeias de suprimentos, os grupos multinacionais costumam segmentar seus processos produtivos para otimizar custos e logística. No entanto, sob a perspectiva das Diretrizes da OCDE de 2022, essa segmentação deve estar perfeitamente alinhada com a realidade funcional e os riscos assumidos em cada jurisdição no âmbito dos Preços de Transferência.

Um dos erros mais comuns e onerosos em matéria de tributação internacional é não distinguir corretamente entre uma operação de Maquila (Tolling) e uma de Fabricação Completa (Full-Fledged Manufacturing). Essa distinção é especialmente crítica em mercados como o do Brasil, onde o modelo de maquila é amplamente utilizado por empresas que buscam integrar processos técnicos específicos dentro de uma cadeia de valor regional mais ampla.

1. Fabricação Completa: O modelo de autonomia e risco

Uma entidade de fabricação completa funciona, para efeitos de Preços de Transferência, como uma entidade independente que assume o controle total de seu ciclo operacional. De acordo com o Capítulo I (Seção D.1) das Diretrizes, a caracterização de uma entidade depende da análise das funções, ativos e riscos.

  • Gestão Integral da Cadeia de Suprimentos: A entidade adquire as matérias-primas por conta própria, assumindo o risco de estoque (obsolescência, danos ou variações de preço).
  • Tomada de Decisões Estratégicas: A equipe local gerencia o planejamento da produção, o controle de qualidade avançado e a logística de saída.
  • Assunção de Riscos de Mercado: Se a demanda pelo produto final cair, é a fabricante local que absorve a perda de rentabilidade.
  • Propriedade de Ativos Intangíveis: Frequentemente, essas entidades desenvolvem ou mantêm processos industriais próprios que agregam valor ao produto final.

Impacto na Rentabilidade: Como o princípio da concorrência perfeita determina que “quanto maior o risco, maior a expectativa de retorno”, essas empresas devem apresentar margens de lucro que reflitam sua exposição ao mercado.

2. Fabricação por Contrato e Acordos de Fabricação por Encomenda (Toll manufacturing): O modelo de serviço

No outro extremo, encontramos os fabricantes com riscos limitados, um esquema muito comum nas operações de fabricação sob encomenda que vemos no Brasil. Aqui, a fábrica local costuma ser um elo que executa pedidos sob a supervisão direta de uma matriz.

  • O Maquilador (Toller): Não é proprietário da matéria-prima; apenas processa insumos que pertencem a terceiros. Sua função é puramente técnica.
  • O Fabricante por Contrato: Embora possa comprar a matéria-prima, ele o faz sob instruções estritas da matriz, que lhe garante a compra de toda a produção a um preço pré-definido.
  • Impacto na Rentabilidade: A OCDE estabelece que essas entidades devem receber uma remuneração baixa, mas estável. O habitual em matéria de Preços de Transferência, de acordo com as diretrizes do Capítulo II, é aplicar o Método de Custo Adicionado (Cost Plus) ou o Método da Margem Operacional Líquida (MNT).

O Ponto de Inflexão: O conceito de Controle sobre o Risco

A atualização de 2022 da OCDE dá ênfase especial ao fato de que o risco segue o controle. Não basta que um contrato diga que a matriz assume os riscos; se a fábrica no país local (seja no Peru, México ou Brasil) é quem realmente toma as decisões sobre a produção, a administração tributária poderia reclassificar a empresa.

Se uma empresa se declara como “maquiladora” de baixo risco, mas na prática atua com autonomia, a autoridade fiscal pode exigir um ajuste nos Preços de Transferência para que a empresa tribute sobre um lucro maior.

Como mitigar contingências fiscais?

Para garantir a conformidade e evitar ajustes por parte das autoridades, é vital:

  1. Alinhar o contrato com a realidade: que as cláusulas reflitam exatamente quem toma as decisões operacionais.
  2. Documentar a análise funcional: realizar entrevistas aprofundadas com o pessoal para fundamentar a caracterização escolhida no estudo de Preços de Transferência.
  3. Benchmarking preciso: selecionar empresas comparáveis que tenham o mesmo perfil de risco.

A distinção entre esses modelos não é apenas uma questão de terminologia, mas de estratégia fiscal global.

No TPC Group, contamos com a metodologia e a experiência técnica para ajudar sua organização a definir seu perfil funcional de acordo com os mais altos padrões da OCDE, garantindo uma posição sólida diante de qualquer fiscalização.

Referências:

Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. (2022). Capítulo I: O princípio da plena concorrência e Capítulo II: Métodos de Preços de Transferência. Em Diretrizes da OCDE sobre Preços de Transferência para Empresas Multinacionais e Administrações Tributárias 2022. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/0e655865-en 

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