A seleção de comparáveis é um dos elementos mais críticos em um estudo de preços de transferência. Uma análise de comparabilidade mal executada pode invalidar completamente a aplicação de um método, gerar ajustes fiscais significativos e aumentar a exposição a sanções por parte da autoridade tributária. Na prática, muitos dos ajustes nas fiscalizações não se originam na metodologia escolhida, mas em erros recorrentes durante o processo de seleção de empresas ou transações comparáveis.
Este artigo aborda os erros mais frequentes na seleção de comparáveis em preços de transferência, explica por que eles ocorrem e detalha como mitigá-los de acordo com as diretrizes da OCDE e as melhores práticas internacionais.

O que são comparáveis em preços de transferência?
Em preços de transferência, os comparáveis são empresas ou transações independentes que apresentam um nível razoável de semelhança com a operação analisada entre partes relacionadas. Sua função é permitir a determinação de uma faixa de mercado que sirva de referência para avaliar se as condições acordadas cumprem o princípio da plena concorrência.
A seleção correta de comparáveis requer a análise, entre outros aspectos:
- Funções desempenhadas
- Ativos utilizados
- Riscos assumidos
- Características do mercado
- Condições contratuais
Essa análise, conhecida como análise funcional e de comparabilidade, constitui a base técnica de qualquer estudo de preços de transferência.
Erros frequentes na seleção de comparáveis
1. Uso de comparáveis sem semelhança funcional suficiente
Um dos erros mais frequentes na seleção de comparáveis é basear-se exclusivamente em critérios formais, como o código de atividade econômica ou a descrição geral do negócio, sem realizar uma análise funcional exaustiva. Embora essas classificações possam servir como ponto de partida, elas não garantem, por si só, a comparabilidade econômica.
Empresas que operam no mesmo setor podem desempenhar funções significativamente diferentes, assumir níveis de risco distintos ou utilizar ativos com diferentes graus de sofisticação. Por exemplo, uma empresa que atua como distribuidor de baixo risco não pode ser comparada adequadamente com outra que assume riscos comerciais, de crédito e de estoque, mesmo que ambas pertençam ao mesmo setor.
As Diretrizes da OCDE enfatizam que, antes de selecionar comparáveis, deve-se realizar uma delimitação precisa da transação controlada (accurate delineation of the transaction), identificando a realidade econômica subjacente além da forma contratual.
Como evitar: A seleção de comparáveis deve basear-se principalmente na análise funcional. É indispensável identificar e documentar detalhadamente as funções desempenhadas, os ativos utilizados e os riscos assumidos pela parte analisada, e compará-los com os de empresas potencialmente comparáveis. A classificação industrial deve ser considerada apenas como um filtro preliminar, não como um critério determinante.
2. Inclusão de empresas com perdas recorrentes sem justificativa econômica
Outro erro comum consiste em incluir empresas com perdas recorrentes no conjunto de comparáveis sem analisar adequadamente as causas que as geram. A incorporação automática desse tipo de empresa pode distorcer a faixa de mercado e reduzir a confiabilidade da análise, especialmente quando a parte analisada não apresenta perdas sustentadas.
As perdas podem responder a fatores extraordinários, ineficiências operacionais, decisões estratégicas específicas ou mesmo situações excepcionais não replicáveis em condições de plena concorrência. Sem uma análise adequada, sua inclusão pode levar a conclusões incorretas sobre o valor de mercado.
Como evitar: As empresas com perdas devem ser avaliadas caso a caso. Só é razoável incluí-las quando se demonstra que:
- As perdas são estruturais do mercado ou do setor no período analisado, ou
- Existem razões econômicas objetivas que explicam essas perdas e que também afetam a parte analisada
Na ausência dessas condições, é recomendável excluí-las da análise de comparabilidade.
3. Falta de depuração e ajuste das informações financeiras
O uso de informações financeiras incompletas, inconsistentes ou não depuradas constitui outro erro relevante na seleção de comparáveis. Isso ocorre, por exemplo, quando as notas explicativas às demonstrações financeiras não são revisadas, ajustes por receitas ou despesas extraordinárias são omitidos ou empresas com estruturas financeiras atípicas são incluídas.
Esse tipo de omissão pode afetar diretamente as margens utilizadas na análise e gerar intervalos que não refletem condições de mercado comparáveis.
Como evitar: É fundamental aplicar filtros financeiros claros e coerentes, bem como revisar detalhadamente as informações disponíveis de cada empresa comparável. Quando for o caso, devem ser feitos ajustes de comparabilidade que eliminem o efeito de itens não recorrentes ou circunstâncias extraordinárias, garantindo que os dados utilizados representem operações realizadas em condições semelhantes.
4. Seleção de comparáveis de mercados geográficos não comparáveis
A seleção de empresas comparáveis localizadas em mercados geográficos com níveis de desenvolvimento econômico, riscos-país ou ambientes regulatórios muito distintos pode comprometer a confiabilidade da análise. Fatores como estabilidade macroeconômica, custos trabalhistas, regulamentações setoriais e acesso a financiamento influenciam diretamente os resultados financeiros das empresas.
O uso indiscriminado de comparáveis estrangeiros, sem uma análise adequada dessas variáveis, pode gerar intervalos que não refletem adequadamente as condições do mercado em que a parte analisada opera.
Como evitar: Sempre que possível, deve-se priorizar comparativos do mesmo país ou região. Quando não houver empresas locais suficientes e for necessário recorrer a comparativos estrangeiros, é indispensável justificar tecnicamente sua seleção, explicando por que as diferenças geográficas não afetam significativamente a comparabilidade econômica.
5. Não atualizar periodicamente o conjunto de comparativos
Reutilizar o mesmo conjunto de comparativos durante vários exercícios fiscais sem verificar sua validade é um erro frequente. Mudanças no modelo de negócios, fusões, reestruturações empresariais, crises setoriais ou variações macroeconômicas podem tornar obsoleta a amostra originalmente selecionada.
A falta de atualização pode gerar inconsistências entre a análise e a realidade econômica do período avaliado, aumentando o risco de questionamentos por parte da autoridade tributária.
Como evitar: O conjunto de comparáveis deve ser revisado periodicamente e atualizado quando houver mudanças relevantes nas condições econômicas, nas informações financeiras disponíveis ou nas características funcionais das empresas analisadas. Essa revisão deve ser devidamente documentada como parte do estudo de preços de transferência.
Importância da consistência metodológica
A autoridade tributária não avalia apenas os resultados da análise, mas também a consistência e a razoabilidade do processo seguido. Uma análise de comparáveis bem documentada, com critérios claros e replicáveis, reduz significativamente o risco de ajustes fiscais.
Além disso, uma seleção correta de comparáveis:
- Reforça a defesa técnica em auditorias
- Melhora a qualidade do estudo de preços de transferência
- Aumenta a previsibilidade fiscal do grupo empresarial
Boas práticas para uma seleção correta de comparáveis
Para mitigar riscos, recomenda-se:
- Documentar claramente os critérios de pesquisa e exclusão
- Fundamentar tecnicamente cada filtro aplicado
- Manter evidências das fontes de informação utilizadas
- Revisar periodicamente a amostra de comparáveis
- Alinhar a análise com as diretrizes da OCDE e a regulamentação local
Conclusão
A seleção de comparáveis em preços de transferência não é um exercício mecânico, mas um processo técnico que requer critério profissional, análise funcional profunda e conhecimento normativo. Erros nesta etapa podem comprometer todo o estudo e gerar contingências fiscais relevantes.
Implementar boas práticas e evitar os erros mais frequentes permite fortalecer a posição do contribuinte perante a autoridade tributária e garantir o cumprimento do princípio da plena concorrência.
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A seleção correta de comparáveis é determinante para a solidez de um estudo de preços de transferência e para uma defesa eficaz diante de uma fiscalização tributária. No TPC Group, contamos com experiência técnica e metodologias alinhadas às diretrizes da OCDE para desenvolver análises de comparabilidade consistentes, devidamente documentadas e adaptadas às normas locais e internacionais. Nossa equipe especializada acompanha grupos empresariais na preparação, revisão e defesa de seus estudos de preços de transferência, reduzindo riscos fiscais e fortalecendo sua posição perante a autoridade tributária.
Fonte: OECD
