Num contexto internacional marcado pela cooperação tributária e pela necessidade de evitar a erosão da base tributária, o relatório país por país (Country-by-Country Report, CbCR) tornou-se uma ferramenta-chave do sistema fiscal global.
Desenvolvido no quadro da Ação 13 do Plano BEPS da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), este relatório visa fornecer às administrações tributárias uma visão clara e padronizada de como os grupos multinacionais distribuem os seus ganhos, lucros e impostos entre diferentes jurisdições.
Além de ser um requisito formal, o CbCR ajuda as autoridades a identificar riscos de preços de transferência, detectar discrepâncias na alocação de lucros e melhorar a equidade fiscal entre os países.
Fundamentos e objetivos do CbCR
O relatório por país (CbCR) foi introduzido pela Ação 13 do Projeto BEPS da OCDE e do G20 para aprimorar a transparência fiscal internacional e as administrações tributárias contra os riscos da erosão da base tributária e transferência de lucros.
O CbCR visa fornecer uma visão geral abrangente e padronizada da distribuição global de ganhos, lucros, impostos pagos e atividades econômicas de empresas multinacionais (multinational enterprises, MNEs), que permite identificar se os lucros declarados correspondem à substância econômica e às funções desempenhadas em cada jurisdição.
Os seus principais objetivos incluem:
- Avaliar os riscos de planejamento fiscal agressivo, detectando possíveis desalinhamentos entre os lucros e a presença econômica real.
- Promover a cooperação internacional por meio do intercâmbio automático e confidencial de informações entre as administrações tributárias participantes.
- Incentivar a transparência e a responsabilidade, esclarecendo como os grupos multinacionais distribuem o seu valor e o ônus tributário entre diferentes jurisdições.
- Alinhar os lucros tributáveis com a criação de valor, garantindo que a tributação ocorra onde se realizam efetivamente as atividades econômicas e se assumem os riscos comerciais.
Da mesma forma, o CbCR faz parte de um sistema de documentação em níveis estabelecidos pela OCDE, juntamente com os arquivos mestre e local. Em conjunto, esses três níveis de informação permitem às administrações realizar uma análise abrangente dos riscos de preços de transferência com base em dados quantitativos e qualitativos.
Escopo e limite de aplicação
O relatório país por país (CbCR) deve ser apresentado por grupos multinacionais cujo faturamento consolidado anual exceda € 750 milhões (ou o equivalente em moeda local) durante o exercício fiscal anterior. Esse limite da OCDE concentra a obrigação em conglomerados com maior capacidade econômica e presença internacional, que representam a maior proporção dos fluxos transfronteiriços, portanto, o maior risco potencial da erosão da base tributária.
O relatório se apresenta anualmente à administração tributária local onde está localizada a entidade-mãe última do grupo, sendo responsável por coletar informações de todas as entidades afiliadas. Quando a empresa-mãe estiver localizada numa jurisdição que não participe na troca automática de informações ou que não garanta a confidencialidade ou a utilização adequada dos dados, as filiais deverão apresentar o relatório na sua própria jurisdição por meio de mecanismos de apresentação secundários ou substitutos.
O escopo do CbCR é verdadeiramente global: mais de uma centena de países aderiram ao Quadro Inclusivo sobre BEPS, comprometendo-se a implementar o padrão mínimo da Ação 13 e a trocar relatórios automaticamente por meio de acordos multilaterais. Este sistema de cooperação internacional permitiu às administrações tributárias obter uma visão abrangente da atividade econômica dos grupos multinacionais, fortalecendo a detecção precoce de riscos fiscais e promovendo uma concorrência mais justa entre jurisdições.
Estrutura e conteúdo do relatório
O relatório país por país (CbCR) emprega um formato padronizado definido pela OCDE para garantir a comparabilidade e a consistência internacional dos dados. Ele consiste em três tabelas principais, cada uma focada num aspecto-chave da análise fiscal.
Tabela I – Informações financeiras por jurisdição:
Inclui receita total, lucros antes dos impostos, impostos pagos e acumulados, capital, lucros retidos, número de empregados e ativos tangíveis. Esses dados identificam possíveis discordâncias entre lucros e substância econômica, evidenciando os riscos de transferência de lucros.
Tabela II – Entidades constituintes:
Enumera todas as entidades do grupo, o seu país de residência fiscal e a natureza das suas principais atividades. Esta informação fornece uma visão abrangente do modelo operacional do grupo, detalhando a distribuição das suas funções e riscos.
Tabela III – Informações adicionais:
Inclui explicações ou notas que contextualizam os dados financeiros, tais como reestruturações ou eventos extraordinários, o que facilita a interpretação do relatório e reduz potenciais análises erradas por parte das autoridades.
Em conjunto, o formato do CbCR fornece às administrações tributárias uma visão geral evidente e verificável da atividade econômica do grupo multinacional, o que é essencial para avaliar os riscos de preços de transferência e a consistência fiscal.
Uso pelas administrações tributárias
O CbCR não se utiliza para ajustes diretos de preços de transferência, mas sim como uma ferramenta de avaliação de riscos. Segundo a OCDE, o relatório permite às autoridades identificar:
- Jurisdições onde se concentram lucros desproporcionais em relação à atividade econômica.
- Possíveis discrepâncias entre os lucros declarados e o número de empregados ou ativos utilizados.
- Estruturas empresariais que podem levar à erosão da base tributária.
Devido ao intercâmbio automático de informações, os países podem comparar os dados do CbCR com outros relatórios, reforçando a consistência fiscal internacional.
Desafios e melhores práticas para a implementação
A elaboração do relatório país por país (CbCR) acarreta vários desafios técnicos e organizacionais para os grupos multinacionais. Entre os mais relevantes está a consolidação das informações globais, que exige a integração de dados financeiros de diferentes jurisdições e sistemas contábeis, garantindo assim uniformidade e precisão.
Outro desafio relevante é manter a consistência com os demais relatórios de preços de transferência, como os arquivos mestre e os relatórios locais. As diferenças entre esses documentos podem gerar riscos de auditoria e questionamentos das autoridades tributárias.
Da mesma forma, a gestão de dados delicados requer atenção especial, já que o CbCR, embora confidencial, contém informações estratégicas que refletem a estrutura operacional e financeira do grupo.
Para enfrentar esses desafios, a OCDE recomenda estabelecer controles internos sólidos, designar equipes especializadas para coletar e validar dados e realizar revisões técnicas antes de apresentar o relatório, a fim de garantir a sua consistência e precisão em todas as jurisdições envolvidas.
Impacto e perspectivas
O CbCR consolidou a sua posição como um pilar da transparência fiscal global. A sua implementação melhorou a deteção de riscos de preços de transferência e reforçou a cooperação entre países. Além disso, as informações obtidas serviram de base para o desenvolvimento de iniciativas complementares, como o Imposto Mínimo Global (Pilar Dois), que visa garantir uma tributação mínima de 15% sobre os lucros das multinacionais.
No futuro, o padrão CbCR poderá evoluir para fornecer maior granularidade de dados, levando alguns países a adotar versões públicas do relatório com base nas exigências de responsabilidade social corporativa e transparência fiscal.
Conclusão
O relatório país por país (CbCR) é um dos instrumentos mais importantes para equilibrar o sistema tributário internacional.
A sua correta implementação reforça a confiança entre os contribuintes e as autoridades, garante a consistência documental e reduz os riscos decorrentes de estruturas fiscais ambíguas.
Neste contexto, as empresas multinacionais devem considerar o CbCR não só como uma obrigação formal, mas também como uma ferramenta estratégica para demonstrar conformidade, transparência e responsabilidade fiscal global.
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Com presença na América Latina, Estados Unidos e Espanha, apoiamos grupos multinacionais e empresas locais na preparação de documentação técnica, análise de riscos e arquivos mestres e relatórios locais, além de alinhar as políticas de preços de transferência com as diretrizes da OCDE e os quadros BEPS.
Fonte: OCDE
