Preços de transferência: a Comissão Europeia contra a Amazon e o Luxemburgo

dezembro 18, 2025

Introdução: A decisão da Comissão Europeia sobre a Amazon e o Luxemburgo

Em 28 de novembro de 2024, a Comissão Europeia adotou sua decisão no caso Comissão Europeia contra Amazon e Luxemburgo, que foi publicada no Jornal Oficial da União Europeia em 28 de novembro de 2025 (Decisão UE 2025/2405). Essa decisão analisa acordos fiscais aplicados durante vários exercícios fiscais anteriores e sua compatibilidade com as regras de auxílios estatais da União Europeia.

A Comissão considerou que esses acordos constituíam um auxílio estatal ilegal ao abrigo do direito da UE. A decisão, refletida na Decisão da Comissão UE 2025/2405, implica que os acordos fiscais aplicados não constituíram auxílio estatal, pelo que o Luxemburgo não recuperará os supostos benefícios fiscais não pagos pela Amazon.

Este artigo analisa os aspetos-chave da decisão, as suas implicações jurídicas e as repercussões para a Amazon e para o quadro fiscal da União Europeia.

O caso: a Amazon e seu acordo fiscal com o Luxemburgo

A Amazon tem sido alvo de controvérsia na Europa por suas práticas fiscais e seus acordos com vários países. Em particular, o Luxemburgo se destacou como um destino recorrente para multinacionais devido ao seu regime fiscal e ao uso de resoluções fiscais antecipadas (tax rulings).

O acordo fiscal entre a Amazon e o Luxemburgo baseou-se em uma série de decisões emitidas ao longo de vários anos, que regulavam a atribuição de lucros intragrupo, especialmente em relação a pagamentos pelo uso de intangíveis. Essas decisões permitiram que uma parte significativa dos lucros gerados por atividades econômicas desenvolvidas na UE fosse atribuída a entidades do grupo com uma carga fiscal reduzida.

A investigação da Comissão Europeia foi iniciada após questionamentos sobre se tais resoluções refletiam condições de mercado comparáveis às que teriam sido acordadas entre partes independentes.

Comissão Europeia contra a Amazon e o Luxemburgo

A acusação: auxílio estatal ilegal

A Comissão Europeia acusou o Luxemburgo de conceder um auxílio estatal ilegal à Amazon ao aprovar uma metodologia de preços de transferência que resultou em uma redução artificial da base tributável. De acordo com o direito da UE, existe auxílio estatal quando uma medida fiscal concede uma vantagem seletiva que não decorre da aplicação normal do sistema tributário.

A acusação baseia-se no princípio da independência, segundo o qual as transações entre partes relacionadas devem refletir preços e margens equivalentes aos que seriam acordados entre empresas independentes em condições comparáveis. A Comissão concluiu que a metodologia aceita pelo Luxemburgo não cumpria esta norma.

Consequentemente, em 2017, a Comissão Europeia determinou que o Luxemburgo tinha concedido um auxílio estatal incompatível com o mercado interno e ordenou a recuperação dos benefícios fiscais indevidos.

Como se materializou a vantagem fiscal?

Do ponto de vista técnico, a Comissão analisou a atribuição de funções, ativos e riscos dentro do grupo Amazon. Observou que a entidade operacional assumia funções-chave e riscos econômicos significativos, enquanto outra entidade do grupo, com uma contribuição econômica limitada, recebia uma remuneração desproporcional por meio de pagamentos intragrupo.

Em termos práticos, o mecanismo questionado funcionava da seguinte forma:

os benefícios decorrentes de atividades econômicas substanciais eram transferidos por meio de pagamentos intragrupo para uma entidade com menor tributação efetiva, sem que essa entidade desempenhasse funções equivalentes ou assumisse riscos comparáveis. Essa atribuição, segundo a Comissão, não teria sido aceita entre partes independentes em condições de mercado.

A decisão da Comissão Europeia: UE 2025/2405

Em novembro de 2024, a Comissão Europeia, após a anulação da decisão pelos tribunais da UE, reconheceu que, no momento da emissão da resolução fiscal em 2003, o princípio da plena concorrência não estava explicitamente incorporado na legislação fiscal luxemburguesa. Por conseguinte, esse princípio não podia ser legitimamente utilizado como critério de referência para determinar a existência de uma vantagem seletiva em matéria de auxílios estatais.

Consequentemente, a Comissão concluiu que não era possível provar que a decisão fiscal luxemburguesa tivesse conferido uma vantagem seletiva à Amazon, ou seja, os acordos fiscais aplicados não constituíam um auxílio estatal.

Implicações para a Amazon e outras multinacionais

Para a Amazon, a decisão implica maior segurança jurídica. Isso elimina a obrigação de recuperar os supostos benefícios fiscais e reforça a ideia de que a Comissão não pode aplicar retroativamente padrões que não estavam incorporados na legislação em vigor.

Para outras multinacionais, o caso reforça a necessidade de as empresas continuarem a garantir uma documentação adequada e a coerência das suas estruturas fiscais. No entanto, a Comissão mantém o seu escrutínio sobre práticas fiscais complexas, o que implica um controlo contínuo dos acordos fiscais, especialmente em matéria de preços de transferência e planeamento fiscal.

Impacto na política fiscal da UE

O caso da Amazon evidencia uma abordagem mais rigorosa por parte da Comissão Europeia, que utiliza o controlo dos auxílios estatais como ferramenta complementar para supervisionar a aplicação dos preços de transferência e combater estruturas que erodem as bases tributáveis no mercado interno.

Conclusão

A Decisão UE 2025/2405 confirma que os acordos fiscais e as políticas de preços de transferência devem ser sustentados não apenas de uma perspectiva formal, mas também econômica e funcional. A correta atribuição de lucros em função de funções, ativos e riscos consolida-se como um elemento central para evitar contingências significativas na União Europeia.

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Fonte: TPCases

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