O Plano de Controle Tributário 2026 da AEAT: Rumo a uma fiscalização de precisão em preços de transferência e substância econômica

março 26, 2026

A recente publicação das diretrizes do Plano de Controle Tributário para o exercício de 2026 da Agência Estatal de Administração Tributária (AEAT) não apenas estabelece as prioridades da administração, mas também consolida uma mudança de paradigma na relação entre o fisco e os contribuintes. Além de uma lista de setores a serem auditados, o documento delineia três eixos de controle que exigirão uma solidez técnica sem precedentes: a fiscalização baseada no processamento massivo de dados, o escrutínio da substância econômica em estruturas internacionais e a vigilância rigorosa sobre a avaliação de intangíveis e as operações financeiras intragrupo.

1. A “fiscalização algorítmica”: o fim da assimetria informacional

Um dos pilares mais disruptivos do Plano 2026 é a integração de modelos preditivos e ferramentas de inteligência artificial para a detecção de perfis de risco. A administração já não parte de uma revisão aleatória, mas de uma análise comparativa automatizada das informações obtidas por meio de mecanismos de intercâmbio automático de informações (CRS e CbC Reporting).

Essa abordagem sistêmica busca identificar discrepâncias entre os lucros declarados pelos grupos multinacionais e a distribuição de seus ativos e pessoal em nível global. Para as empresas, isso implica que a coerência dos dados reportados em diferentes jurisdições é agora o primeiro filtro de sobrevivência diante de uma inspeção. Uma discrepância numérica entre o Local File de uma subsidiária e o Relatório País por País (Country-by-Country Report – CbC) gerará, quase inevitavelmente, uma ordem de auditoria.

Da mesma forma, reforçam-se os mecanismos de cooperação administrativa, incluindo inspeções conjuntas e controles multilaterais entre administrações tributárias.

2. Substância econômica: a prevalência do conteúdo sobre a forma

O Plano 2026 dá ênfase especial ao combate às estruturas que carecem de “substância econômica relevante”. A autoridade fiscal sinalizou que não bastará a existência formal de contratos intragrupo ou a residência fiscal em jurisdições com tributação favorável.

  • Entidades de serviços compartilhados e holdings: Será examinado se essas entidades dispõem dos meios materiais e humanos necessários para a tomada de decisões estratégicas.
  • Reavaliação de funções: O foco passa da mera conformidade formal para a identificação de onde o valor é realmente gerado. Se uma entidade local reportar margens mínimas sob a caracterização de “baixo risco”, mas assumir de fato funções de gestão crítica, a administração procederá à reclassificação ou recaracterização da operação e realizará os ajustes correspondentes na base tributável.

 

3. Ativos intangíveis e operações financeiras: os novos pontos de atrito

A avaliação de intangíveis e a dedutibilidade de despesas financeiras intragrupo continuam sendo áreas de alta litigiosidade. O Plano de Controle 2026 introduz um rigor adicional na análise das operações financeiras, exigindo que a entidade mutuária demonstre não apenas a necessidade do crédito, mas também sua capacidade de endividamento sob uma perspectiva de mercado (análise de solvência ou credit rating).

Quanto aos intangíveis, a administração aplicará de forma estrita a abordagem DEMPE (Desenvolvimento, Melhoria, Manutenção, Proteção e Exploração). O direito à remuneração por um intangível não decorre mais exclusivamente da titularidade jurídica, mas da execução das funções mencionadas.

 

4. O ônus da prova e o padrão de documentação

Seguindo a tendência dos tribunais superiores internacionais, o Plano 2026 eleva o padrão exigido para a documentação de Preços de Transferência. Ela não é mais considerada um mero requisito de conformidade (compliance), mas um instrumento probatório de defesa.

A administração fiscal advertiu que rejeitará as análises de comparabilidade baseadas em filtros mecânicos ou em bancos de dados desatualizados. Espera-se uma análise econômica detalhada que justifique por que os comparáveis selecionados refletem fielmente as condições de plena concorrência no contexto específico do mercado em 2026.

Implicações estratégicas e gestão de riscos

A natureza do Plano de Controle 2026 sugere que a defesa técnica deve ser construída de forma preventiva. A improvisação diante de uma solicitação de informações pode resultar em ajustes fiscais significativos, juros de mora e sanções por falta de substância.

A lição para as gerências financeiras e fiscais é clara: a consistência entre a política contratual, a realidade operacional e o respaldo econômico dos preços de transferência deve ser verificável em tempo real. Qualquer discrepância entre esses elementos será detectada pelos novos sistemas de controle da autoridade.

Coerência técnica como eixo da estabilidade fiscal

Neste ambiente de fiscalização de precisão, contar com uma empresa especializada em preços de transferência é uma medida fundamental de gestão de riscos. No TPC Group, integramos a análise jurídica com a solidez econômica para garantir que as políticas intragrupo de nossos clientes não apenas cumpram a regulamentação, mas também sejam tecnicamente defensáveis diante do escrutínio administrativo mais rigoroso.

Se sua organização opera em um ambiente multinacional e busca fortalecer sua estratégia de conformidade diante das novas diretrizes do Plano 2026, o momento de agir é agora. Uma abordagem estruturada e proativa é a única garantia para mitigar contingências e preservar a segurança jurídica de seu negócio no ambiente global.

Fonte: Cuatrecasas

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