A documentação dos preços de transferência constitui um dos pilares fundamentais do cumprimento tributário para os grupos multinacionais. No âmbito das ações do projeto BEPS (Base Erosion and Profit Shifting) promovido pela OCDE e pelo G20, foi estabelecido um padrão de documentação em três níveis —Relatório Local, Relatório Mestre e Relatório País por País (Country-by-Country Report ou CbCR)— com o objetivo de fornecer às administrações tributárias informações suficientes, coerentes e comparáveis para avaliar os riscos associados às operações entre partes relacionadas.
Embora esses três instrumentos façam parte do mesmo sistema documental, sua finalidade, alcance, conteúdo e destinatários são substancialmente diferentes. Compreender suas diferenças é fundamental não apenas para garantir a conformidade regulatória, mas também para mitigar riscos de fiscalização, ajustes tributários e sanções significativas.

O que é o esquema de documentação em três níveis e por que ele existe?
O esquema de documentação em três níveis surge como resposta à necessidade de maior transparência fiscal internacional, diante de estruturas empresariais cada vez mais complexas e altamente integradas em nível global.
Antes do BEPS, muitas administrações tributárias contavam apenas com informações fragmentadas e locais, o que dificultava:
- Identificar a criação real de valor dentro do grupo.
- Detectar práticas de erosão da base tributária.
- Analisar adequadamente os riscos de preços de transferência.
A Ação 13 do Plano BEPS da OCDE introduz essa abordagem tripartida com uma lógica clara:
- O Relatório Local permite analisar operações específicas em cada jurisdição.
- O Relatório Mestre oferece uma visão global do grupo multinacional.
- O Relatório País por País fornece uma radiografia quantitativa da distribuição mundial de receitas, impostos e atividade econômica.
Quem é obrigado a apresentar cada documento?
As obrigações variam de acordo com a regulamentação de cada país, mas seguem padrões comuns:
- Relatório Local: Obrigatório para entidades locais que realizam operações com partes relacionadas, desde que ultrapassem certos limites definidos pela legislação interna.
- Relatório Mestre: Geralmente exigido de entidades que fazem parte de grupos multinacionais cujos rendimentos consolidados ultrapassam um determinado limite (frequentemente 750 milhões de euros, embora possa variar).
- Relatório País por País (CbCR): Obrigatório para o grupo multinacional quando a receita consolidada excede o limite estabelecido pela OCDE (750 milhões de euros), e geralmente é apresentado pela entidade controladora final ou, em certos casos, por uma entidade substituta.
Quando e a quem são apresentados esses documentos?
- Relatório Local e Relatório Mestre Normalmente devem estar disponíveis no encerramento do exercício fiscal e ser apresentados:
- Juntamente com a declaração de imposto de renda, ou
- A pedido da administração tributária durante uma fiscalização.
- CbCR É apresentado anualmente, geralmente dentro de 12 meses após o encerramento do exercício, à administração tributária do país de residência da entidade obrigada, que troca essas informações automaticamente com outras jurisdições.
Relatório Local: análise detalhada das operações relacionadas
O Relatório Local é o documento mais técnico e específico. Seu objetivo é demonstrar que as transações realizadas pela entidade local com partes relacionadas cumprem o princípio da plena concorrência (arm’s length principle).
Conteúdo típico do Relatório Local
- Descrição da empresa local e seu ambiente econômico.
- Análise funcional (funções, ativos e riscos).
- Identificação e caracterização das transações relacionadas.
- Seleção e aplicação do método de preços de transferência mais adequado.
- Análise de comparabilidade e seleção de comparáveis.
- Resultados financeiros e conclusões.
Foco principal
O Relatório Local responde à pergunta central da autoridade tributária: O preço acordado entre partes relacionadas é equivalente ao que teria sido acordado entre partes independentes em condições comparáveis?
Relatório Mestre: visão estratégica e global do grupo multinacional
O Relatório Mestre fornece uma visão macro do grupo multinacional, permitindo que as administrações tributárias compreendam como o negócio está organizado globalmente e onde é gerado o valor econômico.
Informações contidas no Relatório Mestre
- Estrutura organizacional e jurídica do grupo.
- Descrição do negócio global e da cadeia de valor.
- Políticas gerais de preços de transferência.
- Informações sobre intangíveis relevantes (propriedade, desenvolvimento e exploração).
- Políticas de financiamento intragrupo.
- Posição financeira e fiscal consolidada.
Importância estratégica
O Relatório Mestre permite:
- Avaliar a coerência entre os resultados locais e a estratégia global.
- Identificar riscos de planejamento fiscal agressivo.
- Comparar as informações do Relatório Local com a realidade do grupo.
Relatório País por País (CbCR): transparência quantitativa global
O Relatório País por País (CbCR) é um relatório essencialmente quantitativo, concebido como uma ferramenta de avaliação de riscos, e não como um instrumento direto de ajuste.
Informações relatadas por jurisdição
- Receitas totais (relacionadas e não relacionadas).
- Lucro ou prejuízo antes dos impostos.
- Imposto de renda pago e acumulado.
- Capital declarado.
- Número de funcionários.
- Ativos tangíveis.
- Lista de entidades do grupo e sua atividade principal.
Finalidade principal
O CbCR permite às autoridades fiscais:
- Detectar desalinhamentos entre receitas, lucros e impostos.
- Identificar jurisdições de alto risco fiscal.
- Priorizar auditorias e fiscalizações.
Principais diferenças entre Relatório Local, Relatório Mestre e Relatório País por País
| Aspecto | Relatório Local | Relatório Mestre | CbCR |
| Abrangência | Local | Global | Global |
| Nível de detalhamento | Alto | Médio | Agregado |
| Enfoque | Operações específicas | Estratégia e cadeia de valor | Risco fiscal |
| Natureza | Qualitativa e quantitativa | Principalmente qualitativa | Quantitativa |
| Destinatário | Autoridade tributária local | Autoridades tributárias | Autoridades tributárias (troca automática de informações) |
Como esses documentos se relacionam entre si?
O valor do esquema BEPS não reside em cada documento isoladamente, mas em sua consistência conjunta:
- O Relatório Local deve ser coerente com as políticas descritas no Relatório Mestre.
- Os resultados financeiros locais devem ser compatíveis com as informações do Relatório País por País.
- Inconsistências entre os três níveis costumam ser gatilhos para auditorias.
Quais são os riscos de uma documentação deficiente?
Uma documentação incompleta, inconsistente ou incorreta pode resultar em:
- Ajustes nos preços de transferência.
- Multas por descumprimento formal.
- Juros de mora.
- Aumento do risco de auditorias recorrentes.
- Danos à reputação do grupo multinacional.
Abordagem estratégica: além do cumprimento formal
De uma perspectiva especializada, a documentação de preços de transferência não deve ser entendida como um mero requisito formal, mas como uma ferramenta de gestão do risco fiscal. Um alinhamento correto entre o Relatório Local, o Relatório Mestre e o Relatório País por País fortalece a posição defensiva do contribuinte e reduz significativamente a exposição perante a autoridade tributária.
Documentação em preços de transferência com suporte técnico e visão estratégica
No TPC Group, como empresa especializada em preços de transferência, acompanhamos grupos multinacionais na elaboração integral do Relatório Local, Relatório Mestre e Relatório País por País, garantindo consistência técnica, alinhamento com BEPS e conformidade regulatória em várias jurisdições. Nossa abordagem combina análise profunda, experiência regional e visão estratégica para reduzir riscos e fortalecer a posição fiscal de nossos clientes.
Fonte: OCDE
